Editoras, Livros e Políticas Culturais no Exterior: para onde caminhará o Brasil?

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Uma das pesquisas que estou desenvolvendo no México é sobre a publicação de autores e autoras brasileiras pela editora Fondo de Cultura Econômica nas décadas de 1940 e 1950. Um dos resultados da pesquisa é a identificação de grandes redes de sociabilidades, envolvendo boa parte da intelectualidade brasileira, em torna da edição de suas obras e da integração latinoamericana proposta pela editora mexicana.

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Marca da Editora Fondo

Talvez por isso, nos últimos dias, minha cabeça tem teimado em juntar dois assuntos aparentemente desconexos:  a chamada  “crise do mercado editorial brasileiro”  e a futura política cultural exterior do Brasil. Os caminhos que ligam estes assuntos, na minha cabeça, são mais ou menos os seguintes.

Fundada em 1934 e iniciando suas atividades editoriais no ano seguinte, o Fondo de Cultura Econômica, já no final dos anos de 1930, avaliava que o mercado de livros no México estava estagnado e não cresceria fortemente nos próximos anos. Decidiu, então, coadjuvar a atuação no mercado interno com  uma ousada aposta no crescimento da editora no plano internacional, sobretudo dirigida ao mercado latinoamericano. Essa aposta vinha ancorada, também, numa perspectiva de integração cultural da América Latina por meio dos livros e efetivada por meio de coleções e redes intelectuais no continente, e na produção de livros baratos, a preço acessíveis, mesmo a compradores distantes, como eram aqueles do Brasil.

Desse movimento resultou, na década seguinte, a integração de parte significativa da intelectualidade latinoamericana na organização e produção de livros para coleções como a Tierra Firme e a Biblioteca Americana, que, nas décadas de 1940 e 1950, tiveram enorme impacto intelectual e acadêmico no continente,  sendo inclusive, a primeira, a responsável por lançar um conjunto de livros, aí incluídos os brasileiros, que se transformaram em clássicos do pensamento social das Américas. Mas, sobretudo, esse movimento resultou na posição do Fondo de Cultura Econômica como a principal casa editorial da América Latina e uma das mais importantes instituições culturais mexicanas atuando no exterior.

Hoje, quase todos os números a respeito do mercado editorial brasileiro são, de certa forma, catastróficos. Segundo as pesquisas,  é muito baixo o número de pessoas que compra livros e, pior ainda, nem as nossas escolas públicas são dotadas de bibliotecas (a média nacional é 55% das escolas sem biblioteca, segundo o INEP, podendo esse percentual chegar a mais de 60% nas escolas), o mesmo ocorrendo com boa parte das cidades do país. É claro que há uma relação entre estes dois fenômenos: como ensinar o gosto pela leitura se não se lê em casa e nem as escolas estão dotadas de mecanismos que ajudem na formação deste gosto? Mas, é evidente que o buraco é mais embaixo.

Um dos problemas é que o livro, no Brasil, é um produto caro se comparado com a média salarial da população. E as camadas médias, que seriam potenciais compradoras, são “descapitalizadas” pela opção política e cultural deste grupo social que, no Brasil,  se afastou dos serviços públicos da educação, saúde e transporte, por exemplo, o que lhe custa parte significativa do salário que recebe. Seria ingenuidade, pois, imaginar que o mercado livreiro iria estar bem quando a vida dos(as) brasileiros que dependem do salário para sobreviver não para de piorar.

Mas fico pensando, talvez ingenuamente, já que o problema é de grande complexidade, se as editoras brasileiras, na impossibilidade de se “exteriorizar”, como fez o Fondo nos anos de 1940, não teriam que desenvolver estratégias de  se “interiorizar”, para o que seria fundamental o apoio de fato, e não apenas retórico, às pequenas livrarias e o incentivo para que mais e mais cidades brasileiras as tivessem. De todo modo, competir com o obscurantismo e à crescente valorização da ignorância será um desafio para todos nós, leitores, escritores, professores e, evidentemente, para as livrarias e as editoras. E, para isso, não há outro remédio do que a incessante luta política e a organização de projetos culturais interessantes  que incluam o livro e a leitura,  pois o certo é que não será apoiando governos e atores do obscurantismo que chegaremos aos “esclarecimento”!

É a propósito dessa questão das políticas culturais que envolvam a leitura e o livro, e por caminhos não lineares, é que me vem a mente a questão da política externa do novo governo brasileiro. O despropósito que se anuncia não é apenas a aliança incondicional e ingênua(?) com o governo dos Estados Unidos. Ele abrangerá, certamente, as políticas científicas e culturas do Brasil com o mundo e, particularmente, com a América Latina. E o que se promete é puro obscurantismo político e cultural.

Durante os governos Lula eu participei, na CAPES, de julgamentos de editais em que o Governo Brasileiro apoiava propostas de professores e professoras brasileiras que queriam dar aulas de “cultura brasileira” em muitas universidades/cidades do exterior, muitas delas na América Latina. Lembro, também, de outros editais que apoiavam a tradução e publicação de livros de autores(as) brasileiros(as) em diversos países do mundo.  Era uma ação cultural fundamental de divulgação do Brasil no exterior.  Eram iniciativas importantes e que retomavam uma tradição já antiga de atuação cultural do Estado brasileiro no exterior.

No início da década de 1950, por exemplo, esteve aqui no México, vinculado à embaixada brasileira, o escritor mineiro, à época radicado no Rio de Janeiro, Cyro dos Anjos.  Ele deu cursos, conferências, organizou revistas e ajudou na tradução de livros brasileiros pela Fondo de Cultura Económica, contribuindo para a divulgação do Brasil por aqui. Segundo Regina Crespo, quando viajava pelo interior do México para fazer conferência, Cyro dos Anjos levava livros de autores brasileiros para distribuir, dentre estes livros estava, por exemplo, um do Manuel Bandeira, publicado pelo FCE alguns anos antes, sob o título de Panorama de la Poesia Brasileña.

Parece que foi também por iniciativa e proposta de Cyro dos Anjos, que o governo brasileiro, por meio da embaixada no México, patrocinou a publicação de clássicos de nossa cultural intelectual no país, como Raizes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), Macha para o Oeste (Cassiano Ricardo), Angústia (Graciliano Ramos)  e O amanuense Belmiro (Cyro dos Anjos), além de participar da edição de outros  livros como Bras Cubas (Machado de Assis),  Cartas da Inglaterra (Rui Barbosa), O sertanejo (José de Alencar) e Canaãn (Graça Aranha).

Fico pensando,  a este respeito, em qual será a política cultural e científica da equipe do novo governo,  que terá no Palácio  Itamaraty um sujeito que acha que o aquecimento global é criada pelos socialistas e que o marxismo começou sua sanha destruidora da cultura ocidental no final do século XVIII, quando Marx nem havia nascido. Será que livros e iniciativas culturais divulgarão no exterior? Divulgarão? Talvez, seja melhor que não!

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